A história por trás de Loreni  

Morador em situação de rua demonstra gratidão por ter saúde e liberdade 

Por Martha Dias e Marco Antônio Moreira

Loreni Alves da Silvia nasceu em uma reserva indigena de Miraguai, no interior de Tenente Portela (Município do Rio Grande do Sul), no ano de 1971. Hoje, com 47 anos, ele trabalha nas ruas de Porto Alegre juntando latinhas para reciclar. 

“Meu sonho é viver tranquilo e em paz como estou vivendo.” Ele narra que procura não fazer nada que vá causar mal aos outros, como sinal de empatia, e adota isso para que sua rotina seja fluida. “A hora que eu levanto de manhã cedo, eu agradeço à Jeová pela noite que passou e pelo dia que vem, pelo alimento, pela saúde, pelos olhos.” O Sr. Loreni é analfabeto, mas é grato pelo conhecimento que tem, ele não tem estudo porque cresceu nas ruas. Vive nas ruas desde os 6 anos de idade e ressalta que não possui pendências com a Justiça, apontando para o prédio do TJRS à sua frente, pois só foi detido em uma ocasião.  

foto 1 reportagem loreniCarrinho de coleta estacionado em frente ao TJRS / Foto: Martha Dias

Atualmente, ele mora na Praça Isabel, a Católica, em Porto Alegre. Loreni conta que não deve nada a ninguém e que a vida vai bem. “É difícil encontrar um morador de rua que nem eu que não deva nada à justiça e que não use drogas, que não bebe.” Seus únicos vícios, conta ele entre um sorriso, são do refrigerante Coca-Cola, o cigarro e o café. Não gosta de bebidas alcoólicas nem outras drogas ilícitas. 

foto 2 reportagem loreniLoreni contanto sobre seus três vícios na vida / Foto: Martha Dias

Quando questionado sobre seus planos futuros, Loreni diz que pretende viajar. “Eu já estou enjoado de estar em Porto Alegre e aí, eu pretendo ir para o interior, e conseguir uma companheira no interior, porque é muito difícil encontrar uma aqui.” Ele menciona que seu último relacionamento amoroso durou cerca de dois anos, mas era conturbado. Pois ela consumia pedras de crack e o vício acabava por esgotar os recursos financeiros do companheiro.  

Com sua rotina diária de trabalho, em que recolhe as sucatas para reciclagem, ele recebe em torno de 100 reais semanais, que usa para comprar os suprimentos de casa. Loreni declara que nunca lhe falta comida, nem para ele e nem para sua cadelinha, Diana de 12 anos de idade.  

foto 3 reportagem loreniCadela Diana, de 12 anos de idade, companheira de vida de Loreni / Foto: Martha Dias

Quanto à sua saúde, ele diz que “minha doença só Deus pode curar, tirando ele, médico nenhum pode.” Fora isso, ele já foi roubado e ameaçado de morte por outros moradores em situação de rua e afirma que nesses casos procurou a justiça. Mas confessa que lhe causou traumas, físicos e psicológicos. No ano de 2001 ele estava entrando na Igreja Universal, que fica na Avenida Júlio de Castilhos e foi atingido por um tiro de arma de fogo. O ferimento foi tamanho, que atravessou seu corpo e ele teve de ficar internado por quatro meses no hospital Hospital de Pronto Socorro(HPS). O ataque, Loreni atribui à inveja, os outros moradores de rua tentam lhe roubar e se aproveitar dele, mas ele não entrega. 

Tocando no assunto de discriminação, por ser um cidadão em situação de rua, ele diz que nunca sofreu por isso. Que conhece todos no bairro em que mora e eles sempre o ajudam, seja com lona para o telhado da casa, ou com uma boa conversa de fim de tarde. “Como eu vivo na rua desde criança, eu gosto de todo mundo, até das formigas.” 

A criação de Loreni foi tranquila, afirma ele. Ele morava com os pais em uma reserva indígena quando seu pai faleceu de velhice, um ano após sua morte, a mãe também o deixou. Ela foi vítima de uma picada de cobra quando saiu para caçar na mata. Sozinho, Loreni permaneceu na casa vazia por um ano. Da reserva, foi parar em uma cidade chamada Cristo Redentor quando saiu para caminhar, e seu perdeu. Loreni permaneceu na cidade por dois anos. Depois, foi encontrado por uma senhora de idade que o acolheu em sua casa. Ficou com ela por três anos, até ela abandoná-lo na rodoviária após informar que viajariam para Brasília, deixando Loreni sozinho na porta do ônibus.

A casa de Loreni 

Loreni conta que no início não tinha o carrinho de coleta para levar a sucata. O material era levado nas costas a carga do dia. Após, com o dinheiro da reciclagem, conseguiu comprar uma bicicleta usada, tirou as suas rodas e recolheu alguns pedaços de ferro para confeccionar, com suas habilidades de carpinteiro, um “carrinho”. Com as partes que restaram da construção, ele fez a sua casa. Loreni conta que coletou, também, algumas peças de madeira do cercamento da Orla do Guaíba, que estava sendo desmontado, e usou-as para fazer o isolamento da moradia.

foto 4 reportagem loreniInterior da casa de Loreni / Foto: Marco A. Moreira

A parte lateral de sua casa foi grafitada pelo artista Marcelo Pax, autor de grafites muito famosos espalhados pelas ruas de Porto Alegre. Pax começou sua trajetória cedo estimulado pela convivência da mãe artesã, incentivando os primeiros rabiscos. Hoje trabalha com um estilo muito particular, em um universo lúdico onde seus personagens habitam um mundo próprio, marcando presença em várias partes da cidade.

O telhado é coberto por uma lona, para isolamento da chuva e ventos, na parte de dentro é visto um forro de PVC. Ainda na lateral, podem ser vistas rodas de bicicleta, para que ele possa viajar e estacionar a casa onde quiser. Na parte frontal,  o sistema de água,  feito com canos e garrafões de agua, posicionados para que a pia funcione perfeitamente. Na varanda da pequena casa fica a casinha da cadelinha Diana, com a cama, agua e pote de comida.

Dentro da casa, há uma espécie de JK, com quarto, sala e cozinha juntos. A foto mostra a cama onde Loreni dorme, os armários com roupas e cobertores, a pia e o fogão, e  utensílios básicos para o dia-dia.

 

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