Um Iglu de Isopor em um dos Metros Quadrados Mais Caros da Capital

Bruno Dornelles
Douglas Webber
Colaborou: Alex Ramirez.

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Em meio ao barulhos de buzinas e motores em um canteiro de uma das mais movimentadas avenidas da capital gaúcha encontramos essa casa. Sob os olhares curiosos dos motoristas protegidos em carros hermeticamente fechados para não deixar o agradável ar condicionado escapar, gravamos a conversa com Claiton e Bruna. Foram as câmeras que atraíram a atenção de quem passava e não os moradores. O cenário do canteiro central que liga a avenida Goethe com a avenida Mariante, no bairro Rio Branco, às dez da manhã de uma quinta-feira quente, era das roupas no varal e uma pequena faxina. O local servia de moradia para dois casais em casas curiosamente improvisadas com isopor e lona. Claiton e Bruna moravam no local há dois anos. Para fins de curiosidade, o metro quadrado no bairro Rio Branco custa aproximadamente sete mil reais, segundo o site Agente Imóvel.

O leitor pode estranhar os verbos todos no passado, mas o motivo é simples: A vida na rua é efêmera e o local já não é mais habitado por eles, não é habitado por ninguém. Voltamos aos nossos anfitriões.

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Bruna é uma moça de Vacaria que veio para Porto Alegre após a morte de sua mãe, já Claiton mora nas ruas da capital desde os oito anos, quando fugiu de casa por causa do pai que o batia. O casal se conheceu em “bailes” e em uma noite de “vacas magras” Bruna ofereceu cerveja para Claiton. De lá para cá, moraram no viaduto da Borges, no viaduto Júlio de Castilhos e depois no canteiro central da Mariante. Enquanto estiveram no canteiro, viveram de doações e da reciclagem. O casal possui também três cães, que ganham mais atenção que eles, segundo Claiton. Ele exemplifica em um causo: Certa feita, uma senhora levou uma boa quantidade de carne moída para os cachorros. Para testar a mulher perguntou, “e para mim?”, foi aí que ela respondeu “tu tem boca para pedir, já eles não”. Claiton conta a história rindo da própria travessura, mas a verdade é que os cães são muito bem cuidados por eles e pelos doadores. No terreno não constava somente a casa deles, como também as casas dos animais, tamanho o asseio.

O material das casas era uma mistura de lona e caixas de isopor. “As caixas a gente ganha do Sushitsu”, conta Bruna, “Ajuda muito no frio”. De fato, isopor é um conhecido isolante térmico e com material abundante por causa da tele-entrega de sushi, o ideia arquitetônica foi ganhando destaque. Dentro da casa, tapete, cama, cômoda, enfeites e até uma TV com Playstation 2. “Os controles estragaram, mas gosto muito de futebol e GTA”, comentou Claiton. A luz vem do poste próximo. A cozinha é um fogo de chão feito um pouco mais distante. Enquanto conversávamos, Claiton estava preparando o que seria o almoço junto com a sopa que levamos. “A gente batalha pela mistura, para ter o que comer. A gente já usou droga, mas hoje não usa mais”, ele comenta, “As vezes vem um cara noiado e tenta ficar com a gente, mas acaba indo embora porque a gente é rigoroso com a limpeza e não gostamos de droga”.

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Pelo que se tem de exemplo, viciados não conseguem viver uma rotina como a de Bruna e Claiton. Eles vivem o dia, mas com o desejo de um dia melhorar de vida. “Ah, um sítio da zona sul. Para poder ter cachorro e até plantar alguma coisa. Esse é o sonho”, comenta Bruna.

Nosso bate-papo foi longo e nossa intenção era voltar e acompanhar mais momentos dessa família porto-alegrense. Menos de uma semana depois, a prefeitura de Porto Alegre retirou os moradores do canteiro. O objetivo era revitalizar com Food Trucks, mas o espaço foi usado apenas no primeiro final de semana após a desocupação. O paradeiro de Bruna e Claiton continua desconhecido.

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